terça-feira, 26 de novembro de 2013

Conteúdo obrigatório na sala do dentista: gibis

Texto publicado no Homo Literatus, em 9 de outubro de 2013.

Ao abrir a boca em frente ao espelho, visualizo uma série de obturações prateadas que cobrem meus dentes do fundo. Quando sorrio, vejo uma dentição mais ou menos alinhada, pode-se dizer até apresentável, fruto do uso de aparelho por nove anos.

Resinas que substituem pedaços quebrados. Gengiva com cicatrizes. Arco colado na parte traseira dos frontais inferiores. Passei boa parte de minha infância em consultórios ortodônticos. Sim, eu tinha muito medo. Minha mãe que o diga. Quase era preciso me amarrar à cadeira e tapar minha boca com mordaça, tamanho era o berreiro. Um caos. Uma vergonha. Enfim.

Mas, acreditem ou não, eu adorava a sala de espera. Motivo: os gibis. Inúmeros e variados que eram, faziam-me esquecer por alguns minutos os terror que me aguardava para dali a pouco. Eu lia vorazmente o máximo possível antes de ouvir meu nome proferido pela secretária, torcendo para que a restauração do pobre coitado lá dentro não desse certo e precisasse ser refeita.

Foi esperando pela minha vez nestes lugares que desenvolvi minha admiração pela Turma da Mônica, o que resultou na fissura pela leitura, que me acompanha até hoje. Mais do que pelos habitantes da Rua do Limoeiro, meu preferido sempre foi o Chico Bento. Ele, Zé Lelé, Nhô Lau e companhia me faziam tentar (em vão) segurar o riso, enquanto os outros pacientes olhavam desconfiados em minha direção. No auge dos meus oito, nove anos, saia dali com vontade de passar um tempo inesgotável lendo aquelas revistinhas, pois, talvez inconscientemente, percebia que aquilo aliviava um pouco minha dura realidade odontológica. Posso dizer que não foi em uma biblioteca que meu interesse pela leitura se desenvolveu, mas sim na sala de espera de consultórios.

Outro dia, ao ir para uma consulta de rotina (ainda possuo um pouco de medo, mas consigo controlá-lo), notei que havia muitas revistas na recepção. Caras, Contigos, Vejas, Épocas. Procurei por baixo da pilha. Nenhum gibi. Havia uma criança ali, inquieta, apavorada com os ruídos arrepiantes que vinham da outra sala. A mãe não conseguia acalmá-la. Não havia nada para distraí-la. Aquelas revistas de gente chata não serviam pra ela.

Pensei no trauma dessa criança, que não extrairia nada de bom daquelas idas ao dentista. Perguntei-me se algum dia ela poderia se interessar pela leitura, se haveria uma situação propícia como aquela para que ela descobrisse que a ficção é a melhor maneira de fugir do mundo real.

Conclui que, talvez, o número de leitores no Brasil fosse maior se os gibis fossem conteúdo obrigatório de uma sala de espera.

terça-feira, 19 de novembro de 2013

O legado de Edgar Allan Poe

Texto publicado no Homo Literatus, em 7 de outubro de 2013.

Atualmente, quando se pensa em tramas policiais e histórias de detetive, é quase impossível não associar esse gênero aos produtos da indústria estadunidense de entretenimento. Filmes e séries com frenéticas e violentas investigações policiais, em que os tiras quase sempre chegam à solução por meio de investidas truculentas, são bem comuns e geram grande receita.

No romance policial não é diferente. Raymond Chandler inseriu seu protagonista, o detetive Phillip Marlowe, no decadente e violento cenário dos Estados Unidos das décadas de 1920 e 1930, auge da Lei Seca e do colapso econômico norte-americano. Nenhum pouco cerebral, Marlowe se utilizava do acaso para resolver os casos nos quais estava envolvido e, por isso, muitas vezes sofria as brutais consequências por se meter em ninhos de gangsteres e policias corruptos.

Porém, antes de “violentos” escritores como Dashiell Hammet e James Ellroy, Edgar Allan Poe, consagrado por suas histórias de horror e mistério, deu vida ao Chevalier C. Auguste Dupin, excêntrico parisiense que tem, assim como Sherlock Holmes, suas ações narradas por um indivíduo que convive com ele, fazendo as vezes de Dr. Watson. Como se vê, possivelmente os contos da “trilogia Dupin” serviram como fonte direta de inspiração para Sir Arthur Conan Doyle.


Esta tríade de narrativas curtas formada por “Assassinatos na Rua Morgue”, “O mistério de Marie Rougêt” e “A carta roubada” mostra um extravagante indivíduo, simpático ao exercício intelectual que, não por qualquer simpatia às vítimas, mas sim pelo prazer de resolver enigmas, envolve-se na investigação de mortes e roubos.

Sentado em sua sala, envolto por trevas e anéis de fumaça provenientes de seu cachimbo, Dupin resolve as ocorrências por meio de deduções baseadas em cálculos matemáticos, estatística e poesia. Sua mente vai além dos métodos investigativos da polícia parisiense, que, segundo ele mesmo a define, é bem intencionada, porém, limitada. Em momento algum ele se vale da força física em suas empreitadas, passando a imagem de um autêntico cavalheiro pensante, cerebral em todos os aspectos de seu ser. Na surdina, baseado em depoimentos díspares com poucas coincidências, notícias de jornal e complexa obviedade de um esconderijo, Dupin surpreende a todos, inclusive ao narrador de suas peripécias, que não se cansa de encontrar novidades em seu curioso comportamento.

Além do misterioso corvo de seu famoso poema e de um assustador e enigmático gato preto, Poe deixou como legado, quando faleceu há 154 anos, um personagem carismático, que se tornou clássico para todos os amantes da boa ficção policial.

domingo, 27 de outubro de 2013

Contradição divina. Hipocrisia diabólica.

 
Artigo publicado em 29 de setembro de 2013 no Homo Literatus.

Como seria uma igreja fundada pelo pior e mais clássico inimigo de Deus?

Machado de Assis, com seu imaginário crítico e irônico, construiu esse absurdo e cômico cenário no conto A igreja do Diabo, publicado pela primeira vez na Gazeta de Notícias, em 12 de fevereiro de 1883. Esta pequena narrativa, dividida em três capítulos, mostra a complexa natureza humana, cada dia mais incompreensível.

O Diabo decide fundar seu próprio templo com a justificativa de que, apesar do aumento das maldades no mundo e de súditos em seus domínios, não havia nenhum tipo de regra ou ritual que regularizasse os atos daqueles que cometiam barbaridades. Ao contrário das outras igrejas, que se dividiram e guerreiam por um mesmo segmento, a sua seria mais forte, de núcleo único.

Sua igreja possui seus próprios fundamentos, nos quais diversas atitudes consideradas imorais pelas premissas divinas são questionadas. Afinal, as regras constituídas por Deus nunca definiram de maneira clara o que seria bom ou ruim. Se posso vender meus bens materiais, como minha casa, porque não poderia comercializar meu voto? Se um carro pode ser comprado, porque os indivíduos julgados pelo mensalão não poderiam comprar veredictos favoráveis? Contradição divina. Hipocrisia diabólica.

O próprio Satanás se define como o senhor da objeção.  A humanidade se prova ainda mais incoerente. Ao integrar-se à diabólica igreja, o sujeito tem total liberdade para praticar os sete pecados capitais, sem reprimendas. Porém, o homem sente grande necessidade de transgredir, burlar às escuras, um sistema de regras.

Viver regrada ou abusivamente? O que, afinal, o ser humano quer? Viver de maneira correta, sem excessos, dividindo ganhos com os menos favorecidos, sacrificando-se por um ente querido para, no final de sua vida, obter uma morte jubilosa seguida de merecido e eterno descanso no paraíso?

O avarento deixa de ser pão-duro e torna-se econômico. O guloso resolve dividir suas iguarias. O preguiçoso quer trabalhar. Ao final de sua jornada, nem o Diabo consegue lidar com tamanha complexidade. Somente Deus e sua infinita paciência conseguem lidar com os absurdos comportamentos de suas crias.

Fica a dúvida de qual teria sido, há 105 anos, o destino de Machado de Assis.

quarta-feira, 25 de setembro de 2013

Uma colcha de retalhos que se descostura


Texto publicado em 25 de setembro de 2013 no Homo Literatus.

Reconheço-me como um adorador de livros. Além de venerá-los e consumi-los de maneira compulsiva, gosto muito de pesquisar a respeito de obras literárias.

Apesar disso, descobri, na faculdade, que há um elemento que muitas vezes deixa essa atividade um tanto quanto monótona. Tudo o que meros mortais como eu desejamos falar a respeito de determinados autor e obra, devemos recorrer a crítico e texto consagrados, ou seja, ao cânone.

Personagens, enredo, foco narrativo, enfim, ponderar sobre cada elemento, todo tijolo que foi utilizado e considerado pelo escritor até ver sua obra pronta. Então, para fugir do rigoroso sistema acadêmico, descobri uma forma prazerosa de escrever sobre aquilo que li.

Uma resenha bem estruturada pode ser tão boa quanto a narrativa da qual está tratando. O crítico explora subjetivamente o livro lido, fazendo um recorte daquilo considerado essencial na trama, expondo suas sensações particulares, que depois podem ser confrontadas com a de outros leitores, criando-se um grande círculo vicioso. Isto gera a possibilidade de debates. A divergência de pensamentos é o que consagra uma obra.

Um excelente exercício propiciado por essa atividade é a identificação de intertextualidades. Muitos escritores bebem em fontes clássicas e sutilmente as incorporam em seu texto.

É o que fizeram Rubem Fonseca, com o protagonista de suas narrativas policiais Paulo Mandrake, livremente inspirado no detetive Phillip Marlowe, de Raymond Chandler, e Machado de Assis, que elaborou a eterna dúvida a respeito da fidelidade de Capitu na cabeça do pobre Bentinho, pautado na peça Otelo, assinada por Shakespeare. As possibilidades comparativas são inesgotáveis.

Saindo do território literário e indo até à sétima arte, é impossível não pensar em Quentin Tarantino, apontado como um liquidificador de cultura pop, criador de personagens como Django e Jackie Brown, inspirados, respectivamente, em figuras dos estilos western e blaxploitation.

O livro deve ser encarado como um mosaico ideológico, uma colcha de retalhos que se descostura com o intuito de intrigar, instigar e, acima de tudo, humanizar seu leitor.

O balancete de Martin Santomé


Texto publicado em 21 de setembro de 2013 na Obvious.

Acordar, trabalhar, comer, sobreviver. Escrito em forma de diário, A Trégua, do uruguaio Mário Benedetti, mostra a trajetória de um homem resignado à rotina diária, que flutua sobre uma zona de conforto da qual não abre mão. 

Protagonista e narrador de seu cotidiano, Martin Santomé é o relator dos dias que antecedem sua aposentadoria. Em meio a uma crise de meia-idade, ele teme ao ócio iminente, que o arrancará de seu repetitivo e monótono cotidiano laboral. 


Seus hábitos são encarados como algo que o blinda de frustrações. Qualquer evento que saia disto trás certo desequilíbrio emocional, por isso, Santomé, viúvo e pai de três filhos, junto à mesa do escritório ou de um café, vive dias automáticos, que remetem à mecânica maneira como realiza seu trabalho de contador: “Hoje foi um dia feliz. Só rotina.”

Sujeito que se dá muito bem com a contabilidade, tem extrema dificuldade em se relacionar com seus próximos. Dedica-se a coisas exatas, ignorando a complexidade das existências que o cercam. O sexo é uma atividade de prazer momentâneo, enquanto a vida em família se compõe de relações conflituosas, já que ele não sabe e nem quer exercer seu papel de pai. As antigas amizades são, em sua maioria, algo que não deixou nenhum tipo de saudosismo.


Suas anotações diárias mostram que, por trás de cada rosto impassível, sorridente ou amargurado, há a frequente e ininterrupta sucessão de pequenas desgraças cotidianas. As rotinas paralelas se entrelaçam, cada qual com seu mundo sombrio e particular.

 As chances ilusórias de Martin Santomé, promessas de felicidade, são dadas por Isabel e Avellaneda, as mulheres de sua vida. Cada oportunidade constitui um abrupto e traumático rompimento cíclico, que é seguido de indagações sobre a existência de um deus/Deus perverso e manipulador. 

Martin Santomé, metódico contador, faz um balancete existencialista de sua biografia automatizada, desprovida de sentimentos. Quando ele finalmente redescobre o que é sentir algo, um golpe fatídico tira a única coisa boa de seu calculado e inexato dia-a-dia.

Compre com 1 clique


Texto publicado em 14/09/2013 no Homo Literatus. 

Ao raro leitor, que esta página acaba de acessar, faço a seguinte pergunta: é a única janela aberta em seu navegador? Muito provável que a resposta seja negativa, pois essa tal de rede mundial dos computadores oferece tantas possibilidades informativas que fica difícil ater-se apenas a uma.

Sinto saudade do tempo em que juntava sofregamente um dinheiro, de trocado em trocado, migalha a migalha, para comprar aquele então caríssimo CD, correndo na contramão da emergente pirataria. Ficava por meses a fio ouvindo apenas aquele álbum, acompanhando as letras pelo encarte de maneira que elas grudassem no cérebro. Atualmente, a dificuldade se encontra no fato de se manter fiel a uma banda ou estilo musical. Ao abrir o caderno Ilustrada, da Folha de São Paulo, ou a revista Rolling Stone, uma enxurrada de bandas que prometem ser interessantíssimas me é apresentada. O resultado: baixo tudo, não ouço nada.

Como não tinha videocassete e o DVD ainda não existia, minha filmografia era baseada em Sessão da Tarde e Tela Quente. Ficava maluco esperando por aquele filme dublado anunciado meses antes de ser transmitido. Chegar à escola sem ter assistido O Grande Dragão Branco, com o lendário Jean-Claude Van Damme, que havia passado no período vespertino do dia anterior, era o maior dos crimes. Agora, não é preciso ser um grande entendedor de informática pra baixar o filme que quiser em poucos minutos. Precisei comprar um HD externo, dada a quantidade de filmes baixados, dos quais, claro, poucos foram vistos.

No início de minha adolescência, esperava ansiosamente pela chegada mensal de cinco gibis da DC Comics, frutos de uma assinatura dada como presente por uma bendita tia. Devorava tudo em menos de dois dias. Na expectativa da chegada do mês seguinte, relia todas as edições. Hoje, a facilidade para comprar online e a variedade de títulos é tamanha, que há várias histórias em quadrinhos encalhadas em minha prateleira, esperando pelo longínquo dia no qual serão lidas.

Nessa mesma estante, obras literárias também se encontram em uma crescente fila de espera. Os culpados, além do meu consumismo literário compulsivo, são os botões virtuais “compre com 1 clique” das livrarias Cultura e Saraiva. Bons tempos aqueles em que eu só lia livros da biblioteca da escola, a maioria da saudosa Coleção Vaga-Lume. Lembro-me de ter lido o drama dos cortadores de cana no romance Açúcar amargo, da autoria de Luiz Puntel, umas três vezes seguidas. Também me deliciei, entre um livro e outro, com releituras do misterioso O escaravelho do diabo, escrito por Lúcia Machado de Almeida. Os volumes apresentavam capas com bordas gastas, tamanha era a rotatividade das edições. Dá certa amargura ver tantos livros novos, intocados, com as páginas brancas, parados aqui em minha pequena biblioteca.

O foco talvez seja um dos maiores dramas desses tempos tão modernos e cibernéticos. Ler, ver e ouvir tanta coisa, ao mesmo tempo, é o mesmo que ser, de uma só vez, católico e protestante, são-paulino e corintiano, nazista e judeu.

Ou seja: dá errado.

terça-feira, 3 de setembro de 2013

Um mês noir e brutal

Texto publicado no blog Caneta Tinteiro.

Ano: 1954. O Brasil passa por um período complicado politicamente, em que as incertezas a respeito de seu presidente fazem com que militares ameacem tomar o poder, políticos analisem melhores posições a serem tomadas e amigos virem as costas àquele que um dia os acolheu e enriqueceu.

Este é o cenário presente no romance Agosto, o quinto da carreira do contista, romancista e roteirista Rubem Fonseca, lançado em 1990. Trata-se de uma narrativa policial histórica, na qual personagens fictícias se misturam às personalidades e acontecimentos reais que marcaram a queda e o suicídio de Getúlio Vargas.

O narrador apresenta Vargas, outrora respeitado e temido ditador, completamente depressivo, derrotado e traído por seus comparsas. Estes fatores facilitaram o ataque do deputado e jornalista Carlos Lacerda, conhecido como "O Corvo", principal opositor do governo vigente. Querendo calar a voz desta ave necrófaga, Gregório Fortunado, "O Anjo Negro", então responsável pela segurança do presidente, trama o assassinato de Lacerda, plano que acaba fracassado, tornando-se um tiro no próprio pé.


O protagonista fictício desta história é o comissário Alberto Mattos, representado pela figura de um herói decadente. Melhor aluno de sua turma no curso de Direito, é um dos únicos policiais que não aceita suborno dos bicheiros e cumpre os trâmites da lei à risca. Seu estômago não suporta a sujeira do submundo carioca e Mattos é obrigado a conviver com uma úlcera no duodeno, que o atormenta juntamente com implacáveis questionamentos existenciais.
Alberto Mattos, assim como os sujeitos amontoados nas minúsculas celas de seu distrito, é um fodido. Questiona-se o tempo todo se vale a pena cumprir um sistema legislativo tão complexo e desfavorável aos que estão à margem da sociedade. Alice e Salete, mulheres igualmente descontentes com o mundo em que vivem, são as paixões de sua vida mal resolvida, que o impede de decidir por qual amor escolher.

Ao publicar Agosto, Fonseca sofisticou um gênero pulp, pois uniu detalhada pesquisa histórica a uma narrativa rápida, refinada e poética, compondo algo que ultrapassa a definição de roman noir.