terça-feira, 18 de junho de 2013

Fabulosos propagadores de lendas

Myilena Queiroz publicou em seu blog, o Astronauta, um interessante artigo intitulado "Em defesa dos contos populares". Nele, ela discorre sobre esse gênero narrativo predominantemente oral que sofre inúmeras modificações até virar literatura. Tais mudanças são efetuadas pelos diferentes imaginários emissores dessas histórias baseadas em lendas e mitos.

Coincidentemente, Neil Gaiman, escritor consagrado pela série em quadrinhos Sandman, acaba de lançar o romance  O oceano no fim do caminho. Gaiman é conhecido por transformar personagens clássicos em "celebridades", dando-lhes complexidade e importância, como ocorreu com As Três Bruxas, inspiradas nas Fúrias, trio de deusas da mitologia grega (foto).

João Guimarães Rosa escreveu muitas de suas histórias influenciado pelas crendices do  grande sertão. Moacyr Scliar fez de figuras mitológicas, como centauros e esfinges, protagonistas e coadjuvantes marcantes. Homero é, até hoje, um mistério, já que não se sabe quem foi o homem (ou mulher?) que narrou Odisseia e Ilíada.

Os "causos" passados de boca em boca e geração para geração são a base do gênero narrativo. Um romance ou conto literário deve possuir as mesmas qualidades das histórias contadas ao redor de uma fogueira, em noites frias, sob céu estrelado. Os interlocutores viajavam na voz daquele que narra, embarcando na fantasia e criando seus próprios Ulisses. Com esses heróis enraizados na memória, tratavam de divulgá-los, eternizando assim suas aventuras.

Gaiman, Rosa e Scliar exerceram e exercem o papel de imortalizadores de mitos, pois deram ao imaginário popular a elegante roupagem de suas narrativas. Se não são novos Homeros, serão lembrados como fabulosos propagadores de lendas.

segunda-feira, 17 de junho de 2013

A era da ficção científica

A ficção científica propõe tramas ambientadas em futuros conturbados. Os homens acabam vítimas de suas próprias máquinas, construídas para serem suas escravas, que desenvolvem inteligência própria e se rebelam contra seus criadores. No âmbito governamental, a paranoia de manter tudo sob controle faz com que todos os indivíduos sejam vigiados por um estado policial opressor.

O escritor estadunidense Philip K. Dick (1928 - 1982) possuía um imaginário idealizador nesse sentido. Em "Fluam, minhas lágrimas, disse o policial", Jason Taverner dorme como celebridade e acorda anônimo em um mundo onde identidade é tudo. Como consequência, vê-se caçado pelo implacável sistema vigente.

Alan Moore e David Llloyd idealizaram uma Inglaterra igualmente opressora em "V de Vingança". O misterioso mascarado tornou-se um símbolo de resistência, tanto que sua face risonha e impassível é utilizada em vários movimentos pertencentes à nossa realidade.

A ação exagerada da Polícia Militar contra os manifestantes desfavoráveis às tarifas de transporte público em São Paulo na semana passada mostra que vivemos em uma época parecida com a da ficção científica. Temos a falsa impressão de sermos livres para nos expressar como bem entendemos. Porém, as prisões, agressões e tiros efetuados pela Tropa de Choque paulistana provaram que somos cada vez mais vigiados.

Tudo indica que, num futuro próximo, seremos, tal como o Taverner de Dick, vítimas de nossos próprios vigilantes. Dormiremos em liberdade. Acordaremos sem identidade.

quinta-feira, 30 de maio de 2013

Ficçãozinha VI

Enfim, era chegada a hora. Depois de muito tempo se encaravam para esse tão esperado duelo. Frente a frente, olho por olho, dente por dente. Ele tentava controlar a ansiedade o melhor que podia, pois o ódio que sentia pelo seu adversário era um sentimento enraizado, crônico, petrificado, algo que talvez nem a morte de seu inimigo poderia eliminar.

Estavam devidamente posicionados. Ambos tomando a mesma distância entre as pernas. Ambos com as armas colocadas no lado direito do cinturão. Ambos com uma Smith and Wesson calibre 38. Ambos com os dentes a ranger. Combinaram um duelo de tiro único, como nos velhos e perdidos tempos. Escolheram aquele pequeno saloon abandonado, localizado naquela minúscula cidade fantasma para que não fossem perturbados. 

Apesar de ter muita coisa para vociferar contra aquele que está a sua frente, ele se mantém em silêncio, assim como seu oponente. Se fosse dizer o que pensava, falaria sem parar por um ano inteiro. Durante toda a sua vida fora atrapalhado por seu contendedor. Todas as vezes em que pensou estar perto de obter algum tipo de êxito, ele o atrapalhou. Todos os seus romances foram arruinados por ele, que arrumava um jeito de afastar as donzelas que cortejava. Por isso, hoje eles se encontravam sozinhos, vítimas um do outro, víboras traiçoeiras que são.

Olhou o rosto de seu rival. Estava mais velho, com o rosto marcado por uma vida de sofrimentos físicos e, principalmente, psicológicos. Apesar do chapéu, conseguia notar os cabelos desgrenhados e brancos, revelando o desleixo daquele que costumava ser tido como um galã. A postura curvada, as mãos trêmulas, o fio de saliva que escorria pelo canto da boca, a camisa surrada, as calças rotas, as botas esburacadas. Era um alvo fácil. Não aparentava ser possuidor da menor agilidade no gatilho.

Preparou-se para o ataque. Seu oponente também. Ouvia-se apenas o barulho do vento que arrastava rolos de feno e espalhava a poeira do lado de fora. A porta do estabelecimento depredado rangia. Encostaram as mãos no cabo de seus cuspidores de fogo. Franziram o cenho. Era o sinal. 

Sacaram os revólveres. Engatilharam. Puxaram os gatilhos.

O ruído do disparo ecoou pela única  rua daquela pequena cidade abandonada. Ele olhou para frente, com o objetivo de conferir se o corpo de seu oponente jazia no chão. O que viu foi a imagem de seu inimigo despedaçada. 

Centenas de estilhaços, que pertenciam ao velho e manchado espelho, anteriormente pendurado na parede, estavam espalhados pelo chão.

quarta-feira, 15 de maio de 2013

Dois irmãos. Um narrador. Várias vozes.


Texto publicado no blog Caneta Tinteiro.

Recentemente, acompanhei um debate literário que teve Milton Hatoum como convidado. Dentre várias questões abordadas a respeito de sua obra, o escritor amazonense disse não ter pressa para escrever. Só publica seus romances, contos ou crônicas quando tem certeza de sua qualidade. Tais atributos podem ser notados em seu livro mais lido. Dois irmãos demorou vinte e cinco anos para ser concebido. Assim como alguém que espera o amadurecimento de uma fruta, ele o colheu no momento certo, para saboreá-lo devidamente.

A trama tem como centro o conflito familiar protagonizado pelos gêmeos Yaqub e Omar, dois indivíduos que saíram do mesmo ventre, mas com gritantes diferenças de personalidade, comportamento e conduta. Yaqub passa cinco anos no Líbano e sua chegada coincide com o final da Segunda Guerra Mundial. Termina o grande conflito internacional e começa a contenda entre os irmãos. No centro dessa batalha estão Halim e Zana, pais com as vidas dilaceradas por dois homens que levaram suas diferenças até as últimas consequências.

Yaqub é o engenheiro calculista. Um reticente que não deixa se expor. Sua forçosa ida para o Oriente Médio, com a intenção de fazerem esquecidas as rusgas com o irmão, tornou-o rompido com seu mundo. Omar, O Caçula, é um Ulisses às avessas. Exposto ao máximo, é valente e rebelde por exibicionismo, tendo mãe e irmã, duas Penélopes aflitas e protetoras, à sua espera. Em sua vida há várias mulheres. Porém, todas são expulsas por Zana. O amor devotado ao filho ultrapassa a barreira maternal, atingindo algo que só os mais românticos poetas sentiriam por suas musas, sendo a própria Zana inspiração de Halim, um marido dedicado e apaixonado, destruído aos bocados pela rivalidade dos filhos.

Para contar essa história, o misterioso narrador costura os retalhos do passado, montando a colcha do drama doméstico. A narrativa é fragmentada, com avanços e retornos temporais que conectam todos os acontecimentos, constituindo um complexo jogo de lembranças e esquecimentos.

Como é recorrente em sua obra, Hatoum utiliza Manaus, uma cidade que "se mutila e cresce ao mesmo tempo", como pano de fundo dessa batalha. Desbrava as entranhas da capital amazonense. Traz à tona os cheiros viscerais de uma cidade apinhada de navegadores e mascates vindos de toda parte. Enquanto uma passagem é narrada, constrói-se um cenário sujo, tropical e melancólico. 

Apesar de o romance ser voltado para a família de origem libanesa, pequenas e roucas vozes manauaras, embargadas pela cachaça, se fazem presentes. Pescadores simples e queimados de sol que conhecem todos os ângulos de uma Manaus caótica e carente. Por isso, tornam-se grandes detetives. Conhecem cada beco, espelunca, prostíbulo ou margem de rio.

Ao final dessa barulhenta batalha, calam-se narrador e leitor, restando apenas o mais ensurdecedor dos silêncios. 

terça-feira, 30 de abril de 2013

"Max e os Felinos": a armadilha literária de Scliar

O sucesso de bilheteria e crítica do filme As aventuras de Pi, dirigido pelo cineasta Ang Lee, ressuscitou uma antiga discussão que era por muitos desconhecida. O longa é baseado no romance do canadense Yann Martel. A trama mostra o menino que passa um longo período a bordo de uma jangada, tendo como única companhia a figura de um gigantesco tigre.

O problema é que, para conceber sua mirabolante história, Martel baseou-se na ideia do escritor brasileiro Moacyr Scliar (1937 - 2011), que já havia escrito uma pequena novela, na qual um garoto convive por certo tempo, em um minúsculo escaler, junto de um jaguar. Na opinião de muitos, plágio.

Para piorar, quando seu livro foi lançado, o canadense criticou a trama imaginada pelo gaúcho, dizendo ser uma ideia muito boa, porém pouco trabalhada. O brasileiro, apesar de dizer não ter se importado, foi desmentido por seu ex-editor Luiz Schwarcz, em recente artigo publicado no Blog da Companhia das Letras.

Então, por conta dessa polêmica reavivada, cheguei ao livro inspirador da obra literária que foi adaptada para o filme hollywoodiano. Max e os Felinos trata da história do jovem alemão Max Schmidt, que é obrigado a deixar seu país com destino ao Brasil por conta da ascensão do partido nazista. Ele não era de família judia, mas envolveu-se com a mulher de um membro do partido. 

Contudo, os temores de Max não estavam relacionados apenas com os futuros causadores da Segunda Guerra Mundial. Seu pai era dono de uma loja de pelagens, onde havia um imenso Tigre de Bengala empalhado, fruto de uma caçada bem sucedida. A figura do gigantesco felino é um trauma de infância que o atormentaria pelo resto de sua vida.

Durante sua fuga, o navio que o levava para a América do Sul acaba por naufragar. O jovem alemão consegue escapar ao embarcar em um remanescente escaler. Além dele, a embarcação tinha como passageiros animais supostamente destinados a um zoológico a ser montado no Brasil.  Inusitadamente, um jaguar sobrevive ao naufrágio e pula para o pequeno barco ocupado pelo garoto, que é obrigado a usar de diversos artifícios para não ser devorado pelo selvagem predador.  
  
Max não sucumbe ao jaguar. Chega ao Brasil, envelhece e constrói seu espaço. Porém, à medida que o tempo passa, surgem, tanto para o protagonista  quanto ao leitor, inquietantes dúvidas: Max realmente viajou na companhia de um jaguar? Não teria sido o animal apenas produto da conturbada imaginação de um garoto temente a figuras felinas? Qual a espessura da barreira entre real e imaginário? 

Assim como nos livros O centauro no jardim e  A mulher que escreveu a bíblia, Scliar, com sua fluente narrativa, mostra toda a riqueza e criatividade do seu imaginário. Cabe ao leitor, por meio da aparente simplicidade presente na trama narrada em Max e os Felinos, responder a tais questões e não cair não nas armadilhas literárias de Moacyr Scliar.

Afinal, em nossas mentes, todos nós temos nossos próprios e ferozes felinos.

quarta-feira, 17 de abril de 2013

Quinze dias

O escritor Milton Hatoum disse em palestra que escreve uma crônica por mês, pois não dá conta de fazê-lo de maneira forçosa com periodicidade menor que essa. Segundo ele, durante vinte e dois dias, uma idéia sobrevoa sua cabeça, até que, no vigésimo terceiro, o cronista “cata” esse pensamento tal fosse uma mosca, senta e escreve.

O romancista e jornalista Rubem Mauro Machado diz que só escreve munido de uma idéia precedente ao texto, sendo impossível concretizá-lo se a mesma já não estiver constituída. O silêncio também é algo imprescindível em sua atividade criativa.

Tony Bellotto só consegue escrever suas narrativas policiais pela manhã, quando sua mente está descansada e cheia de vigor. Depois desse período, a turbulência do dia-a-dia torna a produção literária praticamente impossível.

Moacyr Scliar era uma máquina de produzir estórias. Mesmo em um saguão de aeroporto lotado, enquanto esperava por seu vôo, ao gaúcho bastava apenas sentar e abrir seu notebook sobre as pernas que as palavras pululavam para a tela digital.

Marçal Aquino afirma só fazer literatura em cadernos manuscritos. Anota todas as idéias que de supetão lhe vêem à mente em pequenos pedaços de papel, que são cuidadosamente guardados, até o momento de serem agrupados e formarem uma excelente narrativa.

Para manter um período de regular criação, eu, leitor assíduo dos textos da autoria dos sujeitos acima citados, resolvi acatar a um bocado de cada técnica ritualística. Escrever é uma das atividades que me causam mais sofrimento e prazer, pois meu processo de criação passa pela caneta tinteiro ou lapiseira, em um rascunho, antes de o resultado final chegar à tela do computador. É como se essa dolorosa labuta servisse para eu mostrar a mim mesmo que estou vivo e ainda ajo como ser pensante (mesmo quando as idéias estão embaralhadas e se transformam em nada).

A partir dessa data, esse espaço passa a ser atualizado quinzenalmente, às quartas-feiras, com o intuito de que as idéias sejam trabalhadas e revisadas com vagar e tranqüilidade (será?) e os textos aqui publicados valham a pena serem lidos.

quarta-feira, 3 de abril de 2013

Arquiteta engenhosa e traiçoeira

O sono bem dormido, aproveitado e profundo sempre foi algo pregado como essencial para a saúde da humanidade. Indiferente a explicações teóricas e freudianas, esse período de imersa e confortável penumbra torna-se, às vezes,  prazeroso ou agitado, conforme as situações que se passam em nossa cabeça, guiadas por algo perdido em nosso secreto subconsciente.

Como mostra o filme A Origem, dirigido por Christopher Nolan, o tempo cronológico dos sonhos é diferente do vivido aqui, no plano terreno, se é que posso assim me referir a essa linha temporal convencional. Uma década pode representar apenas dez horas de sono, cinco horas podem representar alguns minutos de um cochilo pós-almoço, até sermos acordados por um chute, algo como uma sensação de queda, o que faz total sentido, pois, afinal, quem nunca acordou a após ter a impressão de tropeçar e cair no vazio? E o que aconteceria caso nunca fôssemos acordados? Cairíamos em um inescapável limbo, enquanto nossos corpos e mentes definhariam feito vegetal.

Na clássica série de histórias em quadrinhos Sandman, Lorde Morpheus, o Senhor dos Sonhos, irmão caçula da Morte, vaga através dos sonhos de todos os que habitam sobre esse planeta. Ele não somente viaja por imaginações perturbadas por pesadelos como também visita os recantos mais sórdidos criados pela crença humana, como o Inferno, dirigido por Lúcifer. Para algumas pobres almas, sonhar é o ato que mais os aproxima de estarem vivos, de viverem num mundo melhor. Esse mundo fictício, criado por Neil Gaiman e representado pelo traço de diversos artistas, não se distancia muito do nosso.

Quem nunca se decepcionou ao acordar e se dar conta de que voltou a uma realidade perturbadora? Enfureceu-se, pois estava vivendo em mundo perfeito, onde todas as máscaras sociais e identidades secretas não mais seriam necessárias, pois tudo estava arrumado e arranjado para dar certo, sem dramas ou esforço, engrenagens bem encaixadas e sistema calibrado?

Culpa de nossa terrível e criativa mente, arquiteta engenhosa e traiçoeira. Deve-se ter cuidado com o que se deseja, pois ela é inventiva ao ponto de criar um universo enquanto dormimos, totalmente indefesos e desprovidos de controle sobre nossos atos. Aí, haja força de vontade para voltar a encarar esse mundo que, talvez, seja real.