Texto publicado no Homo Literatus em 21 de janeiro de 2014.
Daniel Galera é um autor de livros com nomes brutos, violentos e robustos, como se pode conferir em Dentes Guardados e Mãos de Cavalo. Sua obra mais recente, Barba Ensopada de Sangue, não foge a essa regra.
Um professor de educação física de Porto Alegre, especializado em
natação e triatlo, muda-se juntamente com a cachorra Beta para a
paradisíaca Garopaba, localizada no litoral de Santa Catarina, após o
anunciado e consumado suicídio de seu pai. A mudança se dá por conta do
obscuro passado do avô paterno, que teve uma nebulosa morte no pequeno e
misterioso povoado catarinense.
Ao chafurdar nesse tempo distante e identificar-se como neto de
Gaudério, o protagonista perceberá que está num silencioso e mortífero
ninho de cobras venenosas. Ninguém sabe de nada ou ouviu falar do homem
ao qual o recém-chegado se refere. Mas a menção desse nome causa
desconforto secretamente visível, que pode ser notado em cenhos
franzidos, olhares perdidos e punhos cerrados.
Em Garopaba, a lei não é determinada por órgãos burocráticos
superiores, mas pela população constituída em sua maioria por pescadores
supersticiosos, cultivadores de lendas e mitos surgidos naquelas
areias, dispostos a defender seu território da maneira que julgarem
necessária.
Ao bancar o detetive para descobrir a verdade sobre seu avô, esse
inculto educador físico descobre muito a respeito de si mesmo, cuidando e
desenvolvendo inexplicável afeto pela velha cachorra deixada aos seus
cuidados por seu pai, cultivando novas amizades e amores carnais
passageiros de mulheres diferentes. A semelhança física com seu avô
aumenta conforme deixa sua barba crescer, tornando essa característica
facial um símbolo do selvagem legado deixado por Gaudério.

Com história forte de ritmo tranquilizador, Barba Ensopada de Sangue é daqueles livros pelos quais lamentamos quando a última página é virada.
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