quarta-feira, 15 de maio de 2013

Dois irmãos. Um narrador. Várias vozes.


Texto publicado no blog Caneta Tinteiro.

Recentemente, acompanhei um debate literário que teve Milton Hatoum como convidado. Dentre várias questões abordadas a respeito de sua obra, o escritor amazonense disse não ter pressa para escrever. Só publica seus romances, contos ou crônicas quando tem certeza de sua qualidade. Tais atributos podem ser notados em seu livro mais lido. Dois irmãos demorou vinte e cinco anos para ser concebido. Assim como alguém que espera o amadurecimento de uma fruta, ele o colheu no momento certo, para saboreá-lo devidamente.

A trama tem como centro o conflito familiar protagonizado pelos gêmeos Yaqub e Omar, dois indivíduos que saíram do mesmo ventre, mas com gritantes diferenças de personalidade, comportamento e conduta. Yaqub passa cinco anos no Líbano e sua chegada coincide com o final da Segunda Guerra Mundial. Termina o grande conflito internacional e começa a contenda entre os irmãos. No centro dessa batalha estão Halim e Zana, pais com as vidas dilaceradas por dois homens que levaram suas diferenças até as últimas consequências.

Yaqub é o engenheiro calculista. Um reticente que não deixa se expor. Sua forçosa ida para o Oriente Médio, com a intenção de fazerem esquecidas as rusgas com o irmão, tornou-o rompido com seu mundo. Omar, O Caçula, é um Ulisses às avessas. Exposto ao máximo, é valente e rebelde por exibicionismo, tendo mãe e irmã, duas Penélopes aflitas e protetoras, à sua espera. Em sua vida há várias mulheres. Porém, todas são expulsas por Zana. O amor devotado ao filho ultrapassa a barreira maternal, atingindo algo que só os mais românticos poetas sentiriam por suas musas, sendo a própria Zana inspiração de Halim, um marido dedicado e apaixonado, destruído aos bocados pela rivalidade dos filhos.

Para contar essa história, o misterioso narrador costura os retalhos do passado, montando a colcha do drama doméstico. A narrativa é fragmentada, com avanços e retornos temporais que conectam todos os acontecimentos, constituindo um complexo jogo de lembranças e esquecimentos.

Como é recorrente em sua obra, Hatoum utiliza Manaus, uma cidade que "se mutila e cresce ao mesmo tempo", como pano de fundo dessa batalha. Desbrava as entranhas da capital amazonense. Traz à tona os cheiros viscerais de uma cidade apinhada de navegadores e mascates vindos de toda parte. Enquanto uma passagem é narrada, constrói-se um cenário sujo, tropical e melancólico. 

Apesar de o romance ser voltado para a família de origem libanesa, pequenas e roucas vozes manauaras, embargadas pela cachaça, se fazem presentes. Pescadores simples e queimados de sol que conhecem todos os ângulos de uma Manaus caótica e carente. Por isso, tornam-se grandes detetives. Conhecem cada beco, espelunca, prostíbulo ou margem de rio.

Ao final dessa barulhenta batalha, calam-se narrador e leitor, restando apenas o mais ensurdecedor dos silêncios. 

2 comentários:

  1. Deixei o link para esta postagem lá com a gente, nas páginas que mencionam Milton Hatoum.
    Um abraço!

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  2. Lembro de quando li "Dois irmãos" para o vestibular e de como me vi fascinada pela história e pela maneira como o Hatoum escreve e descreve a nossa cidade.
    Que bom que ele toma o tempo que acredita necessário, mesmo que dure anos, para enfim apresentar sua obra ao mundo. A maturidade de sua escrita não dá vez à ansiedade de escrever o mais rápido que der somente para agradar aqueles que o esperam aflitos.

    Bela resenha Murilo.

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