terça-feira, 23 de julho de 2013

Jason Taverner não existe

Texto publicado no blog Caneta Tinteiro.

Afinal, o que é real ou imaginário?

Assim como Dr. Martin Harris (interpretado por Liam Nesson) em Desconhecido (Unknown, 2011), Jason Teverner, o protagonista do romance Fluam, Minha Lágrimas, Disse o Policial, da autoria de Philip K. Dick, não é mais reconhecido por seu público e tão pouco pelas pessoas tidas como próximas a ele.

Cantor e apresentador de um programa semanal visto por 30 milhões de espectadores, Taverner sofre um atentado e acorda completamente incógnito. Perdeu os sentidos como celebridade e despertou um simples anônimo, sem documentos ou influência, num futuro em que identidade é tudo. Colocado como "despessoa", Jason corre contra o tempo para descobrir se sua verdadeira linha temporal é a anterior ou a atual.

Nessa ficção científica, Dick apresenta Los Angeles, a capital do romance policial pulp, comandada por um Estado policial autoritário e repressor. Uma distopia, como a criada por Alan Moore e David Lloyd em V de Vingança, na qual os cidadão são vigiados em tempo integral, tendo o seu direito de ir e vir confiscado.

Os estudantes das universidades são marginalizados, classificados como poderosa ameaça à organização social. Com isso, permanecem aprisionados e isolados nas instituições acadêmicas.

Infratores são condenados aos campos de trabalho forçado, uma vez notado pela polícia, não é mais possível passar-se despercebido. O homem mais discreto acaba perseguido pelo implacável e metódico aparelho de segurança estatal.

Essa situação cria humanos paranoicos, desprovidos de sentimento. O sofrimento é a única saída para sentirem algo numa realidade controlada por máquinas inteligentes, idealizadas por eles próprios.

Personagens como essas são expostas pelo autor e podem ser exemplificadas na figura de Kathy, uma garota em crise existencial que passou por tratamento psiquiátrico e questiona-se o tempo todo a respeito de sua sanidade mental, pois não sabe se o que vive é produto de alucinações.

Escrito em 1970, o livro apresenta um cenário parecido com o que estamos vivendo, em que as pessoas, reféns das redes sociais, dopadas pela mídia e reprimidas pelo sistema policial e político, estão cada vez mais distantes de sua humanidade.

sexta-feira, 28 de junho de 2013

O retorno

Confesso que às vezes sou um tanto quanto repetitivo. Quando gosto de uma coisa, vejo e revejo, leio e releio, visito e revisito. E há mais ou menos quinze dias venho ouvindo e reouvindo o esperadíssimo álbum 13, do Black Sabbath. 

Óbvio que não devemos nos iludir quando uma banda de origem setentista retorna aos trabalhos com sua formação original. À exceção do baterista Bill Ward (magistralmente substituído por Brad Wilk, do Rage Againist The Machine), Ozzy Osbourne, Tony Iommi e Geezer Butler tentam resgatar, com auxílio do aclamado produtor Rick Rubin, pelo menos um pouco do clima daquele áureo e distante tempo.

Paranoid Master Of Reality são, de longe, meus discos preferidos. Então, esperava encontrar um resquício que fosse de músicas como "Lord Of This World", "Sweet Leaf", e "Eletric Funeral" . Encontrei, para minha felicidade, muito mais do que isso, já que o disco revisita o stoner clássico, sem deixar de apresentar um som atual. Quando digo "atual", refiro-me à ausência da sujeira animalesca dos primeiros álbuns. Enfim, traços da contemporaneidade que não deturpam a qualidade desse novo álbum. Foi uma grande surpresa, também, encontrar nas faixas "End Of Beginning" e "Dear Father" a sonoridade de "Black Sabbath", antológica música do primeiro LP.

Fui um dos felizardos que conseguiram garantir ingresso para o show em São Paulo, no dia 11 de outubro. Ansiosamente espero por um show que mescle clássicos com músicas de 13 e mostre aos indies modernetes  de hoje o que é rock n' roll de verdade.

terça-feira, 25 de junho de 2013

Má literatura de boa qualidade

Ele chegou ao trabalho particularmente eufórico naquele dia. Explicou-me o motivo de tal euforia, o que me levou a ser contagiado por aquela excitação, pois eu também já a havia vivenciado. Falamos sobre as personagens, acontecimentos, reviravoltas e cenas marcantes. Não falávamos sobre um filme ou capítulo de novela, não senhor. A pauta de nossa confabulação era o livro O caçador de pipas, best seller escrito por Khaled Hosseini.

Os intelectuais de plantão condenarão a obra por nós discutida, dizendo que se trata de má literatura, com baixo teor artístico, coisa para quem não quer pensar em nada. E não são apenas os cabeçudos pertencentes à alta academia que dessa maneira pensam. Há muitos graduandos que já se portam como repudiadores da literatura de massa, ou seja, uns chatos. Já dizia Rubem Fonseca, em O Caso Morel, seu primeiro romance (um best seller, na época em que foi lançado): Raymond Chandler é melhor que Dostoiévski, mas ninguém tem coragem de dizer isso.

Livros como O Código Da Vinci e Anjos e Demônios, de Dan Brown, e A menina que roubava livros, de Markus Zusak, já se tornaram clássicos entre os mais vendidos. Com narrativa rápida, quase policial, e temas que intrigam o leitor, são uma excelente porta de entrada para a leitura. Afinal, quem não se interessaria pelos segredos do Santo Graal e dos Illuminati, ou pelo fato de a própria Morte ser narradora de uma história contextualizada durante a Segunda Guerra Mundial? 

Muitas pessoas que não têm o hábito de ler reclamam da falta de empolgação com as obras escolhidas quando tentaram adquirir tal costume. Iniciaram suas jornadas, mas acabaram as abandonando antes de chegarem à metade, por acharem aquela atividade muito cansativa. A alta literatura, com o devido respeito, não é a melhor escolha, em sua grande maioria, para iniciados. A lista dos mais vendidos seria a melhor opção.

Em tempo: Brown acaba de lançar Inferno, que figura entre os mais vendidos desde que apareceu nas prateleiras. Eu e meu considerado colega já combinamos de ler a obra, para que mais debates acalorados aconteçam. Fica a dica para aqueles atrás de má literatura de boa qualidade.

segunda-feira, 24 de junho de 2013

A criminologia de Kendall

Quadrinhos mensais tendem a não manter a qualidade de suas histórias. É preciso muita criatividade da parte de roteiristas e desenhistas para manter em alta o nível de entretenimento. 

Editoras mainstream como DC Comics muitas vezes deixam seu público na mão nesse quesito, pois há um constante entra e sai de argumentistas, que muitas vezes deixam um arco pela metade.

Esse não parece ser o caso de "Aventuras de uma criminóloga", HQ italiana editada aqui no Brasil pela Mythos Editora, que tem como protagonista a charmosa detetive acadêmica Júlia Kendall. A revista chegou ao número cem em março deste ano e desde então tenho acompanhado as tramas complexas nas quais a criminóloga se envolve.

Os roteiros são escritos por Giancarlo Berardi, criador de Kendall e do clássico personagem western Ken Parker. As histórias são muito bem elaboradas, com narrativas paralelas que se entrelaçam no final. Os desfechos são empolgantes, dignos de grandes thrillers. E o fato de os quadrinhos serem em preto e branco traz todo o charme da pulp fiction.

Com o deturpado cenário caça-níquel das editoras americanas, "Aventuras de uma criminóloga" mostra-se a melhor saída. Na contramão dos super-heróis, Júlia Kandall não possui super-poderes. O que ela possui mesmo é astúcia.

sexta-feira, 21 de junho de 2013

Por que escrever?

Li um texto no qual um quadrinista (que não ganha a vida fazendo o que gosta, ou seja, histórias em quadrinhos) explicava o motivo pelo qual, quando tinha chance, pegava em sua caneta Bic e criava tiras, mesmo sem ganhar dinheiro nenhum por isso. O artigo escrito por Érico Assis, na verdade, mostrava uma série de depoimentos a respeito da nona arte, com o título de "Por que quadrinhos (3)?", no Blog da Companhia das Letras.

Foi inevitável o que ocorreu depois da leitura: peguei-me a indagar o mesmo, mas com relação à escrita desses pequenos textos que aqui publico. Já me perguntaram, quando digo que mantenho um blog, se recebia por isso. Óbvio que eu gostaria de ganhar a vida escrevendo, mas não seria apenas pelo dinheiro. 

Então porque, afinal, quando tenho um tempo livre, pego uma caneta ou lapiseira e um pedaço de papel para escrever textos que pouco serão lidos?

Escrevo, pura e simplesmente, porque me faz bem. 

Quando termino um texto, sobre qualquer assunto, seja ele extenso ou não, é como se eu chegasse à casa de minha mãe e a encontrasse me esperando com um abraço apertado e meu prato predileto à mesa. 

É como se eu achasse inesperadamente cinco reais esquecidos no bolso de uma calça quando achava que estava falido. 

É como se o São Paulo fizesse o gol do título aos quarenta e oito do segundo tempo, com dois jogadores a menos e fora de casa.

É como ouvir "When The Levee Breaks", do Led Zeppelin, no auge de uma bebedeira.

É como se, depois de um dia difícil, eu recebesse um beijo de minha namorada.

Com essas pequenas e poucas respostas, cheguei à conclusão de que sou escritor amador justamente por isso: porque amo esse ofício.

quinta-feira, 20 de junho de 2013

Prata da casa

Antonio Prata é um cronista e contista que escreve às quartas-feiras no caderno Cotidiano do jornal Folha de São Paulo. Para se destacar entre em um diário que tem entre seus colunistas nomes como Clóvis Rossi, Juca Kfouri, Tostão, Xico Sá, Dráuzio Varela, Álvaro Pereira Júnior, Michel Laub e Ferreira Gullar, é preciso mostrar um algo mais. Antonio mostra isso e vai além.

Todo meio de semana ele desperta a ansiosidade de cada vez mais leitores. Com notável maestria, faz uma interessante alternância de textos literários e jornalísticos, valendo-se de uma linguagem limpa e fluente, que torna a leitura muito prazerosa. Seus temas se relacionam com pequenos acontecimentos do cotidiano e grandes ocorrências relatadas na mídia. 

Seu texto "Recordação", no qual um taxista relata suas agruras amorosas a um passageiro desconhecido, é uma narrativa digna de muitas análises e releituras, dado o seu poder cativante. Em "Entre ou saia", relata com acidez e ironia o fato de um aluno do Colégio Bandeirantes ter sido impedido de entrar na instituição por estar vestido com uma saia. "A passeata", publicado ontem, traduz o sentimento de perplexidade que atinge todos os brasileiros diante da onda de protestos em andamento por todo o país. Afinal, o que está acontecendo? Além do aumento abusivo do passe de ônibus, quais são nossas causas? A corrupção? A Copa do Mundo? A Rede Globo? 

Por tratar de temas atuais com inteligência e ser bem articulado, Antonio atrai um publico mais jovem, identificado com a linguagem rápida das redes sociais. É um excelente modelo a ser seguido por aqueles que sonham em seguir a carreira jornalística ou para quem, pura e simplesmente, quer ler jornal e ter a sensação de que está lendo um livro.

quarta-feira, 19 de junho de 2013

Pela culatra

Frustração. Essa é a palavra que define o sentimento de quem escolhe o filme errado. Há muitas dúvidas com relação à sua escolha. Naquele dia, não se tem nada em mente. Percorre-se todas as prateleiras e seções da locadora. Nada. Até que aparece uma capa anunciando bons atores e diretor razoável. Diversão garantida?

De modo algum. Filmes policiais muitas vezes atuam como políticos: prometem, mas não cumprem. As sinopses, sempre bem elaboradas, atraem o espectador para uma armadilha. Essa emboscada visa roubar, em média, uma hora e trinta minutos que não voltam mais da vida daquele que está à procura de cenas com, socos, chutes, facadas, tiros e sangue.

Clássicos como Máquina Mortífera e Duro de Matar são modelos incontestáveis de bons filmes do gênero policialesco. Cumprem sua função, pois carregam uma grande dose de ação e humor. Esses longas são exclusivamente para entretenimento, não havendo espaço para reflexão. Quando o diretor resolve inserir uma carga dramática na história, geralmente não dá certo. A narrativa fica truncada, nada acontece, o filme cansa, os diálogos não fazem sentido.

Killshot - Tiro Certo é produzido por Lawrence Bender, produtor do clássico Pulp Fiction, de Quentin Tarantino. Além dele, Mickey Rourke (Sin City, Barfly), Joseph Gordon-Levitt (A Origem) e Rosario Dawson (À prova de morte) integram o elenco. Difícil imaginar que esse filme é ruim. Porém, o diretor John Madden conseguiu tal façanha.

Rourke interpreta Black Bird, um matador de aluguel indígena que se encrenca com a máfia. No meio do caminho, adota Richie Nix (Levitt) como parceiro e, depois de um assalto fracassado a uma imobiliária, passa a perseguir um casal sobrevivente que viu seu rosto. Com problemas conjugais, Wayne (Thomas Jane) e Carmen (Diane Lane) tornam-se o foco do thriller, impondo uma dramaticidade estranha à proposta policial da trama.

Depois de longos e intermináveis noventa e cinco minutos, tem-se a certeza de que Killshot é um tiro que, ao contrário de ser certeiro, na verdade saiu pela culatra.