quarta-feira, 14 de novembro de 2012

Ainda sobre as séries

Em outro texto publicado nesse espaço, intitulado Uma arte menor, discutia e duvidava eu a respeito da qualidade e valor artístico das séries. Durante um bom tempo as julguei (preconceituosamente, talvez) como meros enlatados estrangeiros que éramos obrigados a aceitar goela abaixo. Bem, o tempo passou (já se vão quatro meses desde que o texto acima referido foi escrito), conversei com mais pessoas, abri a mente para novas possibilidades e pronto: fui fisgado por uma série, recomendada por uma amiga. Com isso, cheguei à conclusão de que realmente há temas para todos os gostos. Sim, ainda me interesso pela temática de House e Dexter, mas a junção de um ator que remete aos pontos máximos da filmografia de Quentin Tarantino a um assunto interessantíssimo fizeram com que Lie to me passasse a fazer parte do meu cotidiano.

O carismático protagonista Dr. Lightman é interpretado impecavelmente por Tim Roth (foto), que fez participações memoráveis nos filmes Pulp Fiction e Cães de aluguel. Lightman é dono de uma agência que soluciona mistérios através do desvendamento das mentiras que as pessoas contam. Reconhecido estudioso, ele possui uma equipe de verdadeiros detectores de mentiras ambulantes, que decifram inimagináveis micro-expressões que o ser humano involuntariamente apresenta quando tenta encobrir algo.

E não foi apenas esse ambiente detetivesco que me cativou. Até aqui, nos nove capítulos da primeira temporada aos quais assisti, tomei conhecimento de variados comportamentos culturais que remetem a diferentes etnias e países. Tudo foi trabalhado de maneira competente para que todos os detalhes levassem à inesperada solução de cada caso. Definir como empolgante, seria pouco.  A única coisa que lamento: foram produzidas apenas três temporadas, que vão de 2009 a 2011. Uma pena.

Então, reitero-me aqui perante aqueles que leram o fatídico texto em que eu crucificava esse gênero no qual venho despendendo considerável tempo. Seria uma falácia eu continuar a insistir na ideia de que se trata de algo de menor valor artístico quando comparado à literatura, ao cinema ou aos quadrinhos. Ah, e não pensem que deixei de ler ou ver filmes. Continuo a fazer tudo isso. Essa série veio apenas somar ao entretenimento de minhas horas vagas.

Recomendo Lie to me para todos que ainda se acanham em acompanhar um seriado. E, por falar nisso, lá vou eu para mais um episódio.

domingo, 21 de outubro de 2012

Bom como um beijo de femme fatale

Como já mencionei inúmeras e exaustivas vezes por aqui, durante o ano, fica difícil para quem gosta de ler encontrar tempo para fazê-lo com a quantidade de afazeres relacionados a trabalho e estudo. Obras muito cerebrais são um convite ao sono. Então, as narrativas dinâmicas, porém, de qualidade, são as melhores pedidas para se degustar no ônibus ou em momentos raros de descanso.

Os romances policiais de Raymond Chandler, ambientados nos Estados Unidos economicamente quebrados das décadas de 30 e 40, presenteiam seus leitores com uma gama de personagens e tramas cativantes, que prendem do início ao fim. No romance “A dama do lago”, de 1943, não é diferente.

O detetive que nada sabe sobre técnicas investigativas, durão e sedutor Philip Marlowe, protagonista das histórias de Chandler, mais uma vez é envolvido em um caso complexo e recheado de reviravoltas. Contratado por Derace Kingsley, um figurão da proibida cidade de Los Angeles, para descobrir o paradeiro de sua mulher, Marlowe se vê em uma teia de acontecimentos que abrange corruptos, enganadores, improváveis inocentes e femme fatales. No rastro de Crystal, bela e loura esposa foragida de Kingsley, que supostamente teria fugido com Chris Lavery (um ex-funcionário do marido), Marlowe é obrigado a subir até um rancho de Derace, em Puma Point, onde conhece o simples caseiro Bill Chess.

Chess informa que, assim como no caso de Kingsley, sua mulher, Muriel, também o havia abandonado e desaparecido. Coincidentemente, ambas possuíam os mesmos belos traços pertinentes a uma femme fatale: louras, lindas, charmosas, misteriosas e, claro, fatais. Enquanto conversam, andando ao redor do lago Little Fawn, têm a grata surpresa de encontrar algo particularmente estranho: o corpo de uma linda, loura e charmosa mulher. Era Muriel.

A partir daí, uma investigação complexa e cheia de reviravoltas é conduzida com narrativa competente e inteligente. Personagens caipiras, nativos da província de Bay City, como o tranqüilo e monótono xerife Patton, dão um ar western à trama, o que contribuí ainda mais para a tensão entre mocinhos e bandidos. Em certos momentos, não se sabe exatamente quem é o bom, o mau ou o feio da história. Policiais corruptos e inescrupulosos levam o leitor a duvidar do papel de cada indivíduo na trama.

A já conhecida habilidade de Raymond Chandler em descrever cenários realmente mexe com o imaginário do leitor. Detalhes como um vaso posicionado em certo canto do imóvel, um tapete que dá ar altivo a um escritório ou a penumbra que abrange uma sala criam cenários como os dos clássicos filmes de estética noir, em que o preto e o branco se entrelaçam por suas intensidades. Várias obras de Chandler, aliás, como “O sono eterno”, foram adaptadas para as telonas e tornaram-se grandes clássicos do gênero.

E, claro, não há como passar despercebido pelas celebres frases metafóricas de Marlowe. Para citar um exemplo: ao entrar em um luxuoso edifício e olhar as vitrines, compara essências e perfumes em frascos de vidro adornados por laços de cetim com “garotinhas em uma aula de balé.”

A estética dada pela editora L&PM ao livro propriamente dito é mais um atrativo. A literatura detetivesca americana sempre foi considerada como pulp. Ciente disso, os editores da L&PM, reconhecidamente a maior e melhor editora de livros de bolso do Brasil, deram um belo acabamento artístico à capa, com cores simples, que remetem a essa literatura considerada marginal pelos críticos mais cultos. Uma blasfêmia, em minha opinião.

Para aqueles que gostam de ação e suspense de tirar o fôlego, “A dama do lago” é leitura obrigatória. 

Ou, como talvez Marlowe o classificasse: um romance noir bom como um beijo de femme fatale.

sexta-feira, 12 de outubro de 2012

O incrível imaginário de Moacyr Scliar

Uma coisa que sempre me intrigou como leitor é a aparente e inesgotável fonte criativa de alguns escritores. Certos caras realmente me surpreendem pela quantidade de obras providas de indiscutível qualidade que lançam. Acho que a maioria das pessoas apreciadoras de literatura já tentou ou teve a curiosidade de escrever uma ficção, algo pequeno e sucinto que desse gosto em ser lido. Confesso: já tentei várias vezes e não consegui. Talvez a solução seja partir de ideias pequenas, como o próprio Lourenço Mutarelli confessou fazer. Mesmo assim, a coisa não é fácil. 

Por isso sou profundo admirador de Moacyr Scliar (1937 - 2011), um médico não somente do corpo humano, mas também das palavras, que sabia manuseá-las como ninguém. Li certa vez, num texto do Tony Bellotto, que ele conseguia escrever em meio a toda agitação de saguões aeroportuários, enquanto esperava por seu vôo. Era só sentar, colocar seu notebook no colo, ligá-lo e pronto: as ideias jorravam para a tela do portátil.

Fui leitor assíduo de seus textos na Folha de S. Paulo e acabo de estreá-lo na forma de literatura, através do romance (um puta romance, aliás, como diria a protagonista da história) "A mulher que escreveu a bíblia". Com uma narrativa envolvente, inteligente e, acima de tudo, ágil, a obra me acompanhou por esses dias (poucos, já que, mesmo com escasso tempo para leitura, devorei-a).

Scliar conta a história do mito da mulher que teria redigido os escritos bíblicos. Até aí, tudo bem. Mas o modo como ele narra o cotidiano da mulher extremamente feia e faminta por sexo adquirida pelo rei Salomão é algo fascinante. Com um vocabulário contemporâneo misturado ao dialeto pertinente à época, o escritor gaúcho mostra sua habilidade, através de sua narradora autodiegética, para criar histórias criativas e mirabolantes, baseadas em mitos e fábulas, que se aproximam dos dias atuais.

As reflexões acerca de seu desejo por certo pastorzinho, o tesão que sente por seu marido (que possui centenas de esposas e concubinas), os planos para conseguir a sua tão sonhada foda, as análises sobre a situação diplomática e política do reino e o seu relacionamento com as outras mulheres do harém de Salomão me arrancaram risos pela absurda relação entre o contexto histórico e os desejos de uma mulher marginalizada por sua feiúra, que é incumbida da escritura do livro sagrado por ser a única alfabetizada (secretamente, diga-se) e detentora de grandes dotes narrativos.

"A mulher que escreveu a bíblia" mostra o quão incrível e inesgotável era o imaginário de Moacyr Scliar. Fábrica de histórias essa que, infelizmente, só teve sua produção interrompida pela morte.

O que, consequentemente, tornou-o um imortal.

terça-feira, 2 de outubro de 2012

Literatura pura e de qualidade

Dos romancistas brasileiros contemporâneos que eu ansiava ler, Milton Hatoum é o que mais me gerava espectativa. Em artigos de jornais e revistas, postagens em blogs literários e no ambiente acadêmico, Hatoum é um nome constante, através da menção de sua obra mais aclamada, o romance intitulado "Dois Irmãos". Porém, não foi por meio desse livro que comecei minha empreitada por seus escritos.
 
"Cinzas do Norte" já estava há alguns meses encaixado em uma pequena fileira de livros alojados em minha estante. Peguei-o para minha prática diária de leitura, que é feita dentro do ônibus da empresa na qual trabalho, no trajeto de volta do percurso. Confesso, já de primeira, que foram entretedores e empolgantes (mesmo sendo eles curtos e fragmentados) momentos literários.  

A história dos amigos Mundo e Lavo é contada numa Manaus historicamente ambientada nos anos de ditadura militar do Brasil. Inicialmente, pode-se pensar que seja um tema batido. Mas esse enredo contribui muito para o andamento da história, que mostra ao leitor os segredos pecaminosos das famílias desestruturadas nas quais os dois amigos de personalidades completamente diferentes cresceram. 

O próprio  Hatoum revela, conforme menciona Irineu Franco Perpetuo no prefácio do livro, que as duas personagens são fragmentos de sua própria personalidade: Mundo, um artista louco que almeja deixar sua terra natal o quanto antes para ganhar outros territórios; Lavo, um indivíduo centrado e ciente de suas obrigações para com seus semelhantes em sua terra.

Ao mesmo tempo em que desenvolve a história  através da voz autodiegética de Lavo, Hatoum faz ferozes e fiéis descrições críticas do então regime político conservador, que invade a casa de Mundo e faz com que seu pai, Jano, viva a mercê dessa cruel e ferrenha doutrina. Mas Hatoum não se atém apenas a esse espinhoso tema. No desenrolar da trama, o leitor absorve grande conhecimento cultural remetente à quente e úmida capital amazonense, que abrange a culinária, o artesanato, as festas e uma infinidade de outras peculiaridades espaciais, como a pobreza e simplicidade das pessoas que habitam as margens dos rios.

Em certa entrevista, o romancista diz que compor romances é um jogo de paciência que exige coragem. Há de se escrever, ler e pesquisar, dia e noite, durante anos, além de ter certa experiência histórica. "Cinzas do Norte" mostra que Hatoum foi paciente e corajoso na medida certa e soube transplantar todo o seu conhecimento sobre Manaus de maneira clara e competente, com uma narrativa forte e envolvente.

"Cinzas do Norte" é literatura pura e de qualidade.

domingo, 23 de setembro de 2012

E o futuro?

Recentemente, adquiri uma das invenções que mais simbolizam a pequeneza portátil que as coisas estão tomando com o avanço da tecnologia. O iPod Shuffle é uma pequena vitrola que pode ser levada a qualquer lugar, discretamente anexada a qualquer parte da vestimenta de quem o utiliza, com fones confortáveis que nos isolam do mundo exterior enquanto fazemos exercícios, lemos um jornal, uma revista, um livro ou simplesmente tiramos um tempo para relaxar e ouvir nossas músicas preferidas em paz. Os fones acoplados aos ouvidos são uma espécie de bloqueio social a qualquer intruso que deseje atrapalhar aquele momento de ócio recreativo.

Em contrapartida, há alguns meses estive a procura de uma vitrola clássica. Não uma vitrola propriamente dita, mas um toca-discos, com caixas de som enormes, que reproduzissem com perfeição os graves e agudos de bandas como Led Zeppelin ou Deep Purple ou Metallica, coisa que nenhum fone de ouvido, por mais moderno que possa ser, conseguiria emitir. Iniciar uma coleção de vinis é algo que me apetece a tempos. Acho bonito uma estante cheia desses objetos clássicos e visualmente atrativos. O problema, no entanto, foi o espaço físico. Não possuo uma área apropriada para acoplar mais uma bugiganga, pois esse pouco espaço disponível já está tomado por livros, papéis, jornais, revistas, quadrinhos, enfim, uma verdadeira esbórnia convidativa a traças e qualquer outro ser que goste de roer papel.

Li, durante essa semana, uma narrativa produzida por uma blogueira em que duas personagens se encontram  em uma livraria. Enquanto a protagonista feminina tomava um café e lia um livro, com fones de ouvido devidamente posicionados em suas orelhas, um rapaz se aproxima e iniciam uma conversa sobre literatura e música. Ele a leva para sua casa com a finalidade de apresentá-la a sua coleção de vinis, já que ela própria possuía uma. O final dessa pequena história todos devem saber.

Essa situação ficcionalmente hipotética me levou a pensar sobre esses hábitos cada vez menos regulares. Colecionar coisas é uma virtude que está ficando cada vez mais no passado. Baixa-se facilmente, com um apertar de botão, qualquer filme ou música que se deseje, gratuitamente, em poucos minutos. De fato, são facilidades que muito ajudam, pois geram uma considerável economia financeira. Mas quem é que vai mostrar uma coleção de arquivos em MP3 ou RMVB a alguém? Quem passará uma tarde inteira tirando o pó e rememorando a aquisição desses itens cibernéticos?

Entre prós e contras, abstrações e coleções, o passado se apresenta como algo cada vez mais distante e poético, o presente com hábitos simples que se tornam cada vez mais raros e singulares e o futuro...

E o futuro?

domingo, 16 de setembro de 2012

Ficçãozinha IV

Tirou a tarde para revirar, arrumar, desfazer-se e organizar velharias. Embora seja um ato simples e teoricamente corriqueiro, sabia que remexer no passado, seja ele material ou abstrato, é uma coisa perigosa. Ainda mais quando se mexe em fotografias, essa arte singular que nos leva a um tempo bom, ruim, alegre, difícil, já distante.

Pais, tios, irmãos, irmãs, primos, primas, tios, tias, amigos. Tudo ia passando por suas mãos, fazendo com que sua expressão mudasse do riso ao cenho franzido a cada imagem envelhecida que seus olhos apreendiam. Quando estava acabando de arrumar tudo, escondida no fundo de uma caixa de sapatos, ela, aquela que participou tão ativamente de sua vida por um (já longínquo) ano, como um soldado oculto que executa uma emboscada, apareceu. E ele sentiu o peso do tiro.

A foto fora tirada em uma antiga boate, popularmente movimentada na época. Cartazes de um refrigerante extinto estavam colados na parte da parede que fazia parte da imagem. Uma garota que por ali transitava fora flagrada no infeliz momento do piscar de olhos. Uma parte do balcão do bar, algumas pessoas de costas, copos de creveja. No centro do cenário, em primeiro plano, ele e ela.

Com as cabeças encostadas uma a outra, sorriam com olhos pequenos que evidenciavam o uso recente de alguns baseados, tão comum na rotina dos então namorados. Ele, com agora ridículos colares, barba e cabelos por cortar, numa tentativa infantil de imitar algum hippie. Ela, com brincos, presilhas, vestido, enfim, estilo que tinha a mesma intenção do seu parceiro.

Há tempos, muitos anos, na realidade, não pensava nela. Fez um grande esforço para lembrar o motivo do término do namoro. Não conseguiu. Alguma idiotice adolescente, na certa. Imagens e sons inundaram sua mente já envelhecida. A risada estridente, o cheiro, a inexperiência no sexo, as conversas, as viagens, os planos, as promessas. Promessas. Todas em vão. Não ficaram juntos, nunca mais se falaram. Quando se encontravam em algum lugar, fingiam não se verem. Aliás, desconhecia seu paradeiro.

Ele se formou, fez mestrado, doutorado, casou-se, teve filhos, netos, enviuvou. Ela, com certeza deve ter constituído família, já que era seu sonho. Seu psicológico não estava preparado para essa avalanche emaranhada de lembranças emotivas. Uma chuva de lágrimas começou a cair sobre a foto amarelada pelo tempo. Ele a deixou cair e, enquanto acompanhava sua lenta queda até o chão, se deu conta de como a vida era cruel. Vivemos, trabalhamos, acumulamos, lutamos, choramos. Para quê?

Todas as coisas boas terminam assim: escondidas no canto de uma caixa de sapatos.

domingo, 9 de setembro de 2012

Jesus Kid e a prostituição intelectual

Jesus Kid é uma ferrenha, intensa e inteligente crítica de Lourenço Mutarelli ao mercado editorial. Com uma prosa rápida e contundente e diálogos ágeis e ácidos que muito lembram os filmes de Tarantino (como o próprio Mutarelli faz questão de mencionar por meio de sua personagem central), o romancista conta a história de Eugênio, um escritor que é obrigado a ficar trancafiado em um hotel por três meses, com a missão de escrever uma história que viraria roteiro para o cinema.

De início, uma missão fácil. Mas, conforme os dias vão se arrastando, o protagonista descobre que criar algo sob encomenda não é das tarefas mais fáceis a serem feitas. Mutarelli mostra um escritor às voltas com sua personagem criada anteriormente, Jesus Kid, que enfraquece conforme sua prostituição intelectual fica mais evidente. Eugênio é um escritor de livros pulp, do gênero western, que são vendidos em bancas de jornais. Ou seja, seu ganha-pão, até então.

A paixão por fazer uma literatura considerada de baixo nível (que, apesar dos pífios rendimentos, realizava-o como artista) é colocada de lado quando lhe oferecem trinta mil reais para que fizesse o tal roteiro. A partir daí, o escritor passa a conviver com todos os personagens que habitam o seu imaginário, em uma louca sucessão de situações surreais e mirabolantes, que fazem o leitor mergulhar em um universo onde realidade e ficção se confundem. 

Com maestria, Mutarelli toca em um assunto que, vira e mexe, vem à tona, na maioria das vezes protagonizado por escritores de personalidade forte e que não desistem de seus ideais por dinheiro, como o britânico Alan Moore. O argumentista inglês não deu seu aval a nenhuma das suas obras que foram adaptadas para o cinema (como Watchmen, A Liga Extraordinária e  V de Vingança) e também se demonstrou extremamente irritado com a decisão da DC Comics (dona do material por ele criado) de lançar a série Before Watchmen.

Em Jesus Kid, essa questão também é levantada, quando, por conta das baixas vendagens, a editora que detém os direitos sobre o pseudônimo (Paul Gentleman) e a personagem criados por Eugênio, pede para que outro escritor tome para si tais elementos e escreva uma história diferente do que vinha sendo criado, para que o caixa volte a engordar.

Até que nível um artista deve descer para que suas ideias sejam compradas e dinheiro possa ser gerado? Sem dúvida, dividendos devem ser obtidos para que seja possível sobreviver em uma sociedade capitalista como a nossa. Mas o quão obsceno pode ser a venda de ideias e ideologias? Será que a consciência criativa de um artista suporta tamanha contradição?

Para aqueles que se preocupam com tais questões, Jesus Kid é leitura obrigatória.