Uma coisa que sempre me intrigou como leitor é a aparente e inesgotável fonte criativa de alguns escritores. Certos caras realmente me surpreendem pela quantidade de obras providas de indiscutível qualidade que lançam. Acho que a maioria das pessoas apreciadoras de literatura já tentou ou teve a curiosidade de escrever uma ficção, algo pequeno e sucinto que desse gosto em ser lido. Confesso: já tentei várias vezes e não consegui. Talvez a solução seja partir de ideias pequenas, como o próprio Lourenço Mutarelli confessou fazer. Mesmo assim, a coisa não é fácil.
Por isso sou profundo admirador de Moacyr Scliar (1937 - 2011), um médico não somente do corpo humano, mas também das palavras, que sabia manuseá-las como ninguém. Li certa vez, num texto do Tony Bellotto, que ele conseguia escrever em meio a toda agitação de saguões aeroportuários, enquanto esperava por seu vôo. Era só sentar, colocar seu notebook no colo, ligá-lo e pronto: as ideias jorravam para a tela do portátil.
Fui leitor assíduo de seus textos na Folha de S. Paulo e acabo de estreá-lo na forma de literatura, através do romance (um puta romance, aliás, como diria a protagonista da história) "A mulher que escreveu a bíblia". Com uma narrativa envolvente, inteligente e, acima de tudo, ágil, a obra me acompanhou por esses dias (poucos, já que, mesmo com escasso tempo para leitura, devorei-a).
Scliar conta a história do mito da mulher que teria redigido os escritos bíblicos. Até aí, tudo bem. Mas o modo como ele narra o cotidiano da mulher extremamente feia e faminta por sexo adquirida pelo rei Salomão é algo fascinante. Com um vocabulário contemporâneo misturado ao dialeto pertinente à época, o escritor gaúcho mostra sua habilidade, através de sua narradora autodiegética, para criar histórias criativas e mirabolantes, baseadas em mitos e fábulas, que se aproximam dos dias atuais.
As reflexões acerca de seu desejo por certo pastorzinho, o tesão que sente por seu marido (que possui centenas de esposas e concubinas), os planos para conseguir a sua tão sonhada foda, as análises sobre a situação diplomática e política do reino e o seu relacionamento com as outras mulheres do harém de Salomão me arrancaram risos pela absurda relação entre o contexto histórico e os desejos de uma mulher marginalizada por sua feiúra, que é incumbida da escritura do livro sagrado por ser a única alfabetizada (secretamente, diga-se) e detentora de grandes dotes narrativos.
"A mulher que escreveu a bíblia" mostra o quão incrível e inesgotável era o imaginário de Moacyr Scliar. Fábrica de histórias essa que, infelizmente, só teve sua produção interrompida pela morte.
O que, consequentemente, tornou-o um imortal.




