Que sou um amante incondicional da nona arte, não é segredo para ninguém que acompanha esse espaço. É difícil haver algum post no qual eu não me refira à ela, citando obras e autores, fazendo pontes com outras formas de manifestação artística. Nesse semestre, como já foi escrito por aqui, estou às voltas com a poesia. Então, procuro enxergar em tudo que leio ou visualizo resquícios da dita cuja. Uma das perguntas que mais venho escutando é: "a poesia existe nos fatos?".
Comecei a ler essa semana a premiada HQ dos gêmeos Fábio Moon e Gabriel Bá intitulada Daytripper. Como é de praxe, introdutoriamente são mostrados alguns fragmentos de artigos escritos por variados e renomados jornalistas. E achei bem interessante o depoimento de um deles, que dizia serem os irmãos, até há poucos dias, dois jovens andando por aí com um portfólio embaixo do braço e agora são possuidores de uma obra-prima.
Em expor essa poesia presente no cotidiano, essa dupla é muito boa. São verdadeiros poetas-quadrinistas, fazendo com que cada traço ali desenhado, baseado em um simples roteiro, possua toda a complexidade e sutileza que um gesto humano possa ter. Para quem não sabe, todo sábado, no caderno Ilustrada, da Folha de S. Paulo, eles produzem tiras igualmente profundas, literariamente falando, em que mostram seres humanos com suas fúteis manias egocêntricas e materialistas sendo reprimidos por lições dadas por animais, tal como nas fábulas de Esopo (para quem não costuma ler o diário impresso, confira em http://10paezinhos.blog.uol.com.br/).
Comparo o modo como esses fazedores de imagem trabalham ao dos poetas, os quais atualmente estou conhecendo e me surpreendendo, João Cabral de Melo Neto e Carlos Drummond de Andrade, que faziam poesia perfeitamente cientes do que estavam escrevendo. Cada rima, palavra, entonação, sibilar, enfim, tudo fazia sentido, pois eram conhecedores não só de obras prontas, mas de teorias também, assim como fazem os irmãos cartunistas com seus traços.
Estou relendo algumas edições de minha coleção de gibis, que remetem a quando lia mensalmente tudo que era lançado no famoso "circuitão pop". Difícil enxergar a mesma poesia nos belos traços de artistas como Graham Nolan (Batman) e Mark Bagley (Homem-Aranha). Muito por causa dos roteiros que, agora, na minha visão adulta, parecem-me descartáveis, interessados apenas na vendagem. Nem escuto falar dos roteiristas daquela época. Acompanhei sagas que são pouco lembradas por críticos de histórias em quadrinhos, dada a pobreza literária dos articuladores que as escreveram.
Pensando em tudo isso, peguei-me a imaginar um mundo utópico, em que eu encontraria graphic novels intituladas "Morte do leiteiro" e "Morte e vida severina": na lombada de cada luxuosa e encadernada edição, estariam impressos os nomes dos respectivos poetas que criaram tais obras, seguidos dos de Moon e Bá, desenhistas sensíveis a esse tipo de roteiro.
Utilizando-me do atual jargão das redes sociais, fica a dica para projetos desse tipo, não somente aos já consagrados artistas, mas também a aqueles que se julgam talentosos desenhistas de traços poéticos, capazes de mostrar a tal poesia que está ligada aos fatos do nosso sofrido cotidiano.